sábado, 10 de setembro de 2016



Atendendo a pedido de Igor Lavrador – faixa Preta 2º dan da Escola Taigen Karate, vamos tentar exaurir e esmiuçar o termos Ikken Hisatsu e emitir algumas considerações.
By Getulio Taigen

Antes de mais nada é importante que eu esclareça que estas são opiniões pessoais e não representam sob nenhuma égide o pensamento federativo ou da maioria dos professores.
Ikken Hissatsu – Trata-se de um termo conhecido na prática do Karate marcial. Tem como objetivo definir a total eficiência da técnica. Significa “Matar com um só golpe” ou “um golpe – uma morte”.
Esse termo Hikken Hisatsu é derivado do Kenjutsu, onde a expressão referia-se a um ataque único e mortal de espada.
O que não quer dizer que todo e qualquer ataque para ser considerado bem sucedido deva resultar em morte... O que deve prevalecer é a ideia de que qualquer embate deva e seja resolvido com um golpe apenas.
Neste momento, é importante que não nos esqueçamos de que numa ocasião de “luta” a carga de epinefrina no sangue é muito maior do que a normal, acarretando uma falsa percepção da realidade, de modo que ferimentos sofridos sejam sentidos somente depois.
Portanto, um ataque que seja desferido apenas para nocautear, pode não alterar a violência do agressor.
Muuuuuuuito bem! Como dizia meu falecido professor Teruo Furusho.
Entretanto, o que capacita um golpe como suficiente para definir uma agressão é uma soma de fatores físicos e mentais.
A ideia de que você deve ser capaz de matar alguém com um golpe parece um pouco cinematográfica...Mais importante que perdermos tempo com considerações sociais é entendermos que NÃO é tão fácil assim alcançar esse objetivo.
Nas palavras de Bruce Lee.
“Esquece a vitória ou a derrota, esquece o orgulho e a dor, deixa teu adversário arranhar tua pele e esmaga a carne dele, deixa-o esmagar tua carne e lhe quebre os ossos, deixa-o quebrar teus ossos e tome-lhe a vida. Não te preocupes em sair ileso. Deixa tua vida diante dele”.
Para conseguir essa eficiência é necessário que o golpe desferido seja único e completo física e mentalmente.
Olhando a primeira vista esse conceito parece bastante cruel, mas se você não tiver esse princípio em mente, seu golpe será fraco, sem finalidade e sem resultado final.
Não se esqueçam de que estamos falando de karate marcial e não de caratê esportivo, onde seu ataque não precisa de contundência, eficiência e eficácia.
Agora se você tem como objetivo ser um competidor em razão das próximas olímpiadas onde o Carate finalmente está inserido, esqueça essa prática. Aliás, pare de ler agora esse estudo. Melhor dizendo, se pretende se preparar para o grande certame mundial, inicie a se preparar com o livrinho de regras debaixo do braço.
Nesse momento, não poderia deixar de dizer que você não pode, nem deve esperar que o Carate esportivo possa lhe propiciar as condições mínimas de defesa pessoal.
Uma certa vez, quando perguntado por uma definição do Karate o mestre de Shoshin Nagamine citou a frase “Kisshu Fushin – Mão do demônio, coração santo”.
Ok!
Agora é que a dificuldade começa - para que você possa adquirir esse conceito é necessário que entenda e pratique segundo alguns critérios e princípios.
O primeiro deles chama-se Kime.
Kime ou “decisão extrema”, forma substantiva do verbo kimeru (decidir, fixar). Em inglês, tem o sentido de ‘resolução’. No Judo, o golpe Kime-no-kata é traduzido como golpe de decisão.
Segundo a definição clássica, uma técnica com Kime, quer seja um ataque ou uma defesa é a que reúne condições como postura correta, decisão e concentração no ponto de impacto com toda a força física e anímica, numa fração mínima de tempo.
Nos livros de Karate lê-se que no instante do Kime, devem-se contrair todos os músculos do corpo.
Nas palavras de Geesink, o primeiro ocidental a derrotar um campeão japonês de Judô: “Os japoneses atualmente têm se dedicado apenas ao estudo do Judô competitivo. Realmente, é extraordinária a quantidade de atletas de alto nível e equipes vitoriosas. Eu, por outro lado, nunca treinei para competição em minha vida. Tudo o que tenho feito é treinar Judô como uma filosofia de vida, exatamente como ensinado pelo Dr. Jigoro Kano. Enquanto os Japoneses planejavam estratégias competitivas, eu treinava os fundamentos. Eu venci porque não treinei Judô para ganhar”.
Usar o kime numa luta refere-se à capacidade de atacar ou defender, sem hesitação e, mais importante, terminar o ataque ou defesa, com determinação e convicção.
Entretanto, para o desenvolvimento e utilização do Kime é necessário o uso de duas valências físicas:
A primeira valência é a forma (técnica propriamente dita) e a segunda é a força física (explosão muscular). Ambas envolvem duas características:
1- Perfeição formal de um gesto e o do grau de força elevada até o seu limite máximo.
2- A velocidade e a força explosiva que devem se aliar a técnica correta. Ou como diria o Professor Yoshizo Machida “zero máximo zero”.
Vamos agora vamos analisar esse conceito á luz da lógica, da ciência e da prática. Só que para podermos nos aprofundar nessa questão precisamos entender um outro conceito – ‘Sun Dome’.
A primeira vez que o conceito ‘Sun Dome’ veio à tona foi com Masotoshi Nakayama, conforme pode ser observado em seu livro 'O melhor do Karate':
“Sun-dome significa interromper a técnica imediatamente antes de se estabelecer o contato com o alvo, mas excluir o kime de uma técnica não é o verdadeiro karate”.
Tá bom! Mas como conciliar a contradição entre ‘kime’ e ‘Sun Dome’, sendo que ‘Kime’ é atacar e defender sem hesitação e com o máximo de potência e ‘Sun Dome’ é interromper esse ataque antes de chegar ao oponente...
O próprio Nakayama tenta responder essa embaraçosa pergunta, e sua resposta só confirma o paradoxo da questão!
Nakayama, um verdadeiro visionário, entendeu claramente que somente através dos campeonatos esportivos o Karate passaria a ser conhecido mundialmente. Mas para que pudesse cair ao gosto do público, deveria haver uma maneira de fazer com que os oponentes não se ferissem e pudessem comemorar num restaurante sua vitória ou lamentar sua derrota com sua integridade física preservada. Assim, desenvolveu o princípio do Sun Dome.
Teoria maravilhosa: Parar o golpe três milímetros antes de atingir o alvo, simplesmente perfeito para um esporte. O golpe é demonstrado sem lesões...Mas!!!! Foge aos princípios basilares nos quais foi fundamentado o Karate, isso sem falar que não funciona num combate real.
Vamos tentar entender melhor o que significa a palavra e o significado de Sun Dome. Sua tradução significa literalmente "Parar à medida". Algo como "Parar numa distância segura" ou "Parar precisamente antes do impacto". Onde:
(sun) – medida e, (dome) - parar.
Mas o que isso significa na realidade?
Estamos bastante acostumados a ver a aplicação de tal conceito em competições onde o maior ou menor grau de precisão do competidor é o exemplo vivo do Sun Dome.
Hum!!! E numa situação de combate real, me perguntariam os senhores? Numa situação real quem se importa em “chegar pertinho", “travar o ataque antes de acertar o alvo”, queremos mesmo é acabar com a agressão. Tirar de ação com o mínimo de movimentos, o mais rapidamente possível e com o máximo de contundência aquele que nos ataca, até porque o Karate tem nessa atitude sua fundação.
Mas, mesmo num combate real, temos de ser capazes de possuir precisão suficiente para executar a técnica corretamente e não "atacar às cegas“, isso sem falar que os movimentos não podem se dar ao luxo de possuirem erros.
A capacidade de conseguir treinar e aplicar efetivamente o sun dome e o kime em todos os movimentos é o resultado de um treino competente, forte e a marca de uma boa escola de Karate.
É necessário o Sun Dome, senão em todas as aulas teríamos alunos seriamente machucados.
É necessário o Kime senão as técnicas carecem de realidade.
O difícil é conciliar os dois e ainda conseguir manter um excelente padrão de qualidade em se tratando de defesa pessoal.
Sempre se pode treinar o impacto dos golpes em aparadores, makiwara (poste de pancadas), sunatawara (saco de areia) etc. Mas como é a mente que perfaz o mundo de cada um e ela se condiciona facilmente, se assim treinarmos, ela entenderá que é para bater forte somente em equipamentos e não funcionaria numa defesa pessoal.
Pronto, lá se foi o Ikken Hisatsu para o vinagre!!!!
Voltamos ao ponto de partida com as mesmas perguntas não respondidas...
Como praticar o Karate tendo como sua essência mais básica o hikken hisatsu, se não podemos aplicá-lo na sua realidade.
Como treinar de forma realística o kime se não podemos fazê-lo com nossos colegas de treino, correndo o risco de sérios acidentes de percurso.
Qualquer dispositivo de ajuda que tentarmos utilizar para minimizar essa dicotomia esbarra obrigatoriamente no tradicionalismo dos mestres de plantão, que apesar de defensores do moderno Caratê esportivo, advogam para si, a alcunha de tradicionalistas...
Ao longo de quase 40 anos como professor tenho tentado por meio de erros e tentativas achar a resposta a essa pergunta, já que na literatura pouco se encontra. Ainda estou procurando e tentando achar a resposta mais razoável e o treino mais acertado.
Agora que já compreendemos claramente esses conceitos, vamos tentar mergulhar neles através da ciência.
Isaac Newton, cientista inglês, foi um cientista dos mais respeitados, publicou em 1687, uma importante obra chamada “Philosophiae Naturalis Principia Mathematica”. Nesta obra foram enunciadas aquelas que mais tarde viriam a ser conhecidas como as três Leis de Newton.
Importante pesquisador, Newton descobriu que a luz branca é a mistura de todas as cores do arco-íris. Também estudou a refração e a reflexão da luz. Desenvolveu o teorema binomial. Desenvolveu o cálculo integral. Formulou a Lei de Gravitação Universal. Foi o primeiro a demonstrar que os movimentos de objetos, tanto na Terra como em outros corpos celestes, são governados pelo mesmo conjunto de leis naturais. No campo da mecânica, formulou suas famosas leis, conhecidas como a Primeira, a Segunda e a Terceira Lei de Newton, que veremos.
Primeira lei de Newton:Todo corpo continua em seu estado de repouso ou de movimento uniforme em uma linha reta, a menos que seja forçado a mudar aquele estado por forças imprimidas sobre ele.
Conhecida como princípio da inércia, essa lei declara que: Se a força resultante é nula, logo a velocidade do objeto é constante. Consequentemente: Um objeto que está em repouso ficará em repouso a não ser que uma força resultante aja sobre ele. Um objeto que está em movimento não mudará a sua velocidade a não ser que uma força resultante aja sobre ele.
Inércia é a resistência que um corpo oferece à alteração do seu estado de repouso ou de movimento. Quanto maior for á massa do corpo, maior a sua inércia, ou seja, maior a resistência que este oferece à alteração do seu estado.
Ex: Uma pessoa que se encontre dentro de um ônibus em movimento continuará em movimento para frente, quando o ônibus parar, se não estiver se segurando, pois a resultante das forças sobre ela é nula e ela tende a manter o seu estado de movimento.
Mais alguns exemplos da 1ª lei:
Uma flecha é atirada. A corda do arco impulsiona a flecha e em certo ponto ela para. Entretanto a flecha continua seu caminho até acertar o alvo. Um jogador saca uma bola de vôlei e erra o saque. Acidentalmente a bola acerta a cabeça de um torcedor e todos observam que, conforme a bola bate na parte de trás da cabeça, a cabeça é projetada a frente e seu cabelo vai para trás (movimento de chicote).
Um praticante de Karate desfere um soco, esse soco após acertar o alvo, para ou diminui sua intensidade, mas a energia despendida pela força muscular e velocidade continua atuando e, produzindo efeitos...
O Karateca recebe um soco e, como a ideia nunca é a de impedir o movimento, mas sim o de desvia-lo, ele imprime uma técnica que resultará no deslocamento do ataque. Note que Karate se coaduna com essa lei, ao desviar e não tentar parar o movimento. Baseando-se nessa lei, para sair da inércia, devemos “explodir” os movimentos com a maior força e velocidade possível e permitir que esse movimento vá até o fim.
2ª lei de Newton: A mudança de movimento é proporcional à força motora imprimida, e é produzida na direção da linha reta na qual aquela força é imprimida. Conhecida como Lei da Dinâmica, de acordo com esta lei, sempre que se aplica uma força num corpo, esta provoca no corpo uma mudança de velocidade - uma aceleração.
Pode-se concluir então, que toda vez em que sobre um corpo atuar uma resultante de forças não nula, este corpo ficará sujeito à ação de uma aceleração. Esta aceleração será maior quando um corpo tiver uma massa menor e, menor se o corpo possuir uma massa maior.
EX: Se o carrinho do supermercado estiver vazio, é muito fácil fazê-lo correr. Mas se o carrinho estiver cheio, você tem que se esforçar muito para fazê-lo andar. Se tentarmos empurrar um sujeito de 120 kls e outro de 60 kls usando a mesma força os resultado serão diferentes.
Um soco de um peso leve é muito mais rápido do que um peso pesado, pois um peso pesado tem que fazer muito mais força para sair da inércia do que um peso pena. Naturalmente, que se treinado na valência física correta o peso pesado poderá vir a apresentar um soco com quase a mesma velocidade, porém com uma maior contundência
Uma massa que ao ser aplicada a uma força for acelerada a certa velocidade produzirá energia. Sabemos que é possível transformar uma energia em outra, porém, é impossível extinguir essa energia.
Segundo o princípio da Conservação da Energia, ela não pode ser criada ou destruída, somente passa de um estado a outro.
A energia não pode ser destruída, mas pode ser desperdiçada, se aplicarmos movimentos errados ou forçarmos essa energia na direção incorreta.
No caso de recebermos um ataque, usando esse princípio, não devemos tentar pará-lo e sim desloca-lo para outra direção. Da mesma maneira, quando alguém recebe um soco, a energia advinda do atacante, passa através do seu corpo para o daquele que recebeu o ataque.
Isso sem entrarmos no mérito da Lei de Hooke, que sustenta que não existe nenhuma matéria completamente rígida. Todas as matérias sofrem deformações diretamente proporcionais à ação das forças que a geraram, podendo persistir mesmo após a retirada das forças que a originaram.
Para simplificar podemos dizer que os movimentos do karate se baseiam em uma força produzida através dos músculos sustentados pelos ossos e tendões do corpo criando energia mecânica cinética e potencial que ao se chocar com o alvo em um impacto direto é igual à massa muscular vezes a distância percorrida durante o impacto mais a velocidade empregada.
Traduzindo: Para que um movimento possa ser forte o suficiente é necessário possuir: 1- Força muscular, 2- Explosão muscular, 3- Técnica apurada, 4- Postura correta, 5- Olhar direcionado, 6- Mente não condicionada e 7- Espírito inabalável.
No momento em que desferimos um soco, temos vários tipos de energia em ação:
a- Deslocamento do corpo (23,7%),
b- Rotação do quadril (25,2%),
c- Rotação do punho – princípio da bala de revolver (3,3%),
d- Flexão dos joelhos (10,2%),
e- Deslocamento do braço até o alvo (25,1%),
f- Expiração forte (12,5%).
Imediatamente nos fazemos a seguinte pergunta: Quem produz um soco mais potente? Um lutador de 100 kg ou um de 75 kg?
Resposta: Depende da velocidade e da força explosiva. Se o lutador de 75 kg aumentar sua velocidade em 15% utilizando todas as energias acima demonstradas, ele e o lutador de 100 kg terão a mesma força de impacto.
Conclusão: A velocidade é 60 % mais importante do que o peso. Naturalmente que não é só isso que decide uma luta, mas vocês entenderam não é?
Isso sem falar no que acontece se acertarmos o oponente no meio do caminho, a força do seu próprio corpo vai ser usada contra ele no momento do impacto do nosso soco, o que aumenta exponencialmente a energia de contato. A melhor forma de aumentar a força do golpe é enquanto ele se movimenta na sua direção.
Ao efetuarmos um ataque, devemos visar não o oponente, mas uns 20 cm depois dele, isto é para assegurar que a mão não desacelerará antes do contato com o alvo.
A velocidade máxima do ataque é atingida quando o foco do ataque está além da superfície alvo.
O que importa não é tanto o peso corpóreo do karateka, mas sim quanta massa muscular de explosão rápida está envolvida no ataque e o quanto ele consegue gerar de energia - vide Michael Phelps, medalhista olímpico com apenas 88 kls.
É, portanto crucial não usar o braço sozinho no ataque e esperar por uma força e energia suficiente para derrubar o oponente.
O corpo inteiro deve ser usado.
Isto explica porque boxeadores raramente são nocauteados por jabs, pois somente a força do braço contribui com o soco, mas são frequentemente nocauteados por ganchos, cruzados ou diretos, quando a massa do corpo inteiro é utilizada junto com o soco.
Com a entrada oficial nas olimpíadas de 2020 no Japão, o Carate passará a ter uma visibilidade sempre desejada mas nunca alcançada, creio realmente na possibilidade de união das federações, escolas e organizações, todas rumando numa só direção.
Ao seguir nesse rumo que no meu entender não possui retorno, os karatecosauros anacrônicos e ultrapassados começarão a desaparecer lenta porém sistematicamente e o Karate Marcial se transformará em Carate Esportivo.
Não possuo bola de cristal para saber se no futuro será bom ou ruim, apenas não consigo, não tenho a intenção, nem competência para alterar a forma como ensino e pratico. Aqueles que não desejarem um karate old school que caminhem resolutamente para o moderno.
Simples assim.

Arte marcial ou esporte competitivo.
By Getulio Taigen
Ainda nesta semana alguns professores estabeleceram um diálogo virtual onde se debateram as possibilidades, vantagens e desvantagens que surgiriam ao Karate á partir de 2020, ou antes, visto que será oficialmente olímpico neste certame.
A conversa foi interessante e recheada de postulados como se espera a dois estudiosos e profundos conhecedores do assunto. Neste dialogo, um se posicionava contrário a esportização em razão da consequente e inevitável perca de seus princípios basilares e o outro relativamente favorável, pois considera a transformação de uma arte marcial em um esporte competitivo um caminho natural de desenvolvimento social, produzindo como efeito secundário uma grande visibilidade e penetração social, considerando que aquele que não desejar praticar um esporte olímpico sempre poderá procurar um dojo tradicional.
Confesso que, talvez, por falta de conhecimento ou capacidade sou (pelo menos por enquanto) contra a transformação de uma arte marcial em um esporte competitivo como qualquer outro, apesar de saber que a quantidade de pessoas que se beneficiariam seria aumentada exponencialmente.
Na verdade não sabemos o que acontecerá, no que o Karate se transformará, entretanto sempre podemos á partir da experiência anterior de outras artes marciais como o Judo, por exemplo, termos pelo menos uma ideia do que nos espera que seria a perda quase que total dos fundamentos filosóficos que nortearam o fundador ao codificar e desenvolver sua arte marcial.
Nesse sentido, transcrevo um estudo descritivo que teve como objetivo verificar o conhecimento dos judocas de ...(*) sobre o histórico, os princípios filosóficos do judô e suas aplicações na prática e no cotidiano.
(*) Foi omitido propositalmente o estado e dojos participantes que não interessam ao fórum.
Participaram do estudo 40 judocas de quatro dojos , sendo que 32 eram do sexo masculino e oito do sexo feminino, com graduação variando de faixas amarelas a pretas.
Como instrumento de medida utilizou-se um questionário e os dados foram trabalhados quantitativamente mediante a estatística descritiva (frequência simples) e qualitativamente, utilizada a análise do conteúdo.
Os resultados indicam que quanto a conhecimentos básicos do histórico do judô apenas um pouco mais da metade dos judocas apresentaram conhecimento;
Quanto aos princípios filosóficos mais da metade dos entrevistados demonstraram ter pouco ou nenhum conhecimento. Apenas sete conheciam as máximas do judô e a maioria relatou que o judô influencia no seu cotidiano.
Com base no conhecimento apresentado pelo grupo, concluiu-se que pouco conteúdo teórico é trabalhado nos locais de prática, mesmo assim, os praticantes afirmam que a prática do judô contribui para a sua formação, porém não sabem discernir de que forma.
Vamos ao relatório do estudo.
Introdução
Dentre as várias artes marciais, o judô se destaca por seus pressupostos filosóficos, os quais foram idealizados visando o desenvolvimento do praticante de maneira integral, indo além da prática de movimentos complexos e repetitivos, mas sim utilizar desses de maneira a desenvolver potencialidades intrínsecas dos praticantes.
Por outro lado, enquanto a prática do judô atual mostra-se cada vez mais competitiva, os professores demonstram a cada dia uma maior preocupação com os resultados em competições, deixando de lado os fatores fundamentais inerentes á citada filosofia.
Este aspecto já foi detectado em um estudo de Santos et al. (1990) no qual encontraram que tanto os técnicos quanto os judocas eram conscientes da filosofia do judô, porém não apresentavam conhecimentos sobre a mesma.
Deste modo, na busca da manutenção e ou resgate dos pressupostos teóricos que fornecem a base para a real contribuição do judô na formação do praticante é que se justifica este estudo, que foi efetuado com o objetivo de verificar o conhecimento dos judocas ... sobre a filosofia do judô preconizada por Jigoro Kano.
Mais especificamente objetivou-se identificar o conhecimento dos judocas sobre o histórico, as máximas e os princípios filosóficos do Judô e, verificar a percepção dos judocas sobre a aplicação da filosofia do judô durante a prática e no cotidiano.
Material e método
Participaram deste estudo de cunho descritivo, 40 judocas, selecionados de forma intencional, cuja exigência era de no mínimo dois anos de prática, sendo:
. 32 do sexo masculino;
. 8 do sexo feminino;
. Média de idade de 21,25 ± 5,3 anos e com média de tempo de prática de 9,92 ± 5,2 anos.
Como instrumento de medida foi elaborado um instrumento do tipo questionário, com questões abertas e fechadas, testada quanto a validade por dois doutores e dois mestres, cujo índice foi de 88% e a clareza, efetuada por três judocas, obteve um índice de 100%.
O questionário foi aplicado com agendamento prévio, nos locais de prática, o qual, depois de esclarecido os objetivos do estudo e assinado o consentimento orientado foi entregue aos judocas para preenchimento subsequente e supervisionado, sem auxílio mútuo.
Os dados foram quantitativamente trabalhados mediante a estatística descritiva (frequência simples) e qualitativamente, utilizada a análise de conteúdo.
Resultados e discussão
Entre os judocas que participaram do estudo:
. 9 são faixa preta,
. 11 faixa marrom,
. 10 faixa roxa,
. 4 faixa verde,
. 2 faixa laranja e.
. 4 quatro faixa amarela.
Quanto à performance esportiva, nove participaram de campeonatos em nível municipal, oito de estaduais, dois de sul-brasileiro, 16 de brasileiros, dois de pan-americano e um de mundial.
Para atender os objetivos do estudo, inicialmente questionamos os judocas sobre o significado da palavra judô.
As respostas obtidas demonstraram que:
. 14 não souberam descrever;
. 8 disseram que se trata de uma filosofia de vida;
. 7 disseram que se trata de uma arte marcial;
. 5 entendem o judô como algo prazeroso, como uma arte e algo relacionado com suavidade, equilíbrio; e,
. 5 veem como algo que trabalha muito o respeito e a decisão de seus praticantes.
As respostas obtidas apontam que a maioria não consegue dizer o significado da palavra judô e os demais a colocam de acordo com o senso comum, ou seja, demonstram um conhecimento superficial.
De acordo com Alvin (1975), quando Jigoro Kano criou o judô ele definiu objetivos para esta arte, que não se limitavam a questões práticas, mas sim um judô que fosse trabalhado como forma de desenvolver o caráter, a moral, autodomínio, autoconhecimento, respeito mútuo, entre outros.
Dando continuidade, perguntamos aos judocas sobre alguns conteúdos históricos, tais como o nome do fundador, o local e o ano de fundação e baseado em que pressupostos o judô foi idealizado.
Dos 40 judocas que participaram do estudo:
. 34 possuem conhecimento do nome do idealizador do judô - Jigoro Kano;
. 6 não souberam responder.
. 33 A grande maioria sabe que o judô foi criado no Japão, porém sete dos entrevistados não opinaram.
. 15 sabiam o ano de fundação do judô, sendo que a grande maioria não respondeu, ou errou a data.
. Alguns comentaram que sabiam, porém haviam esquecido.
Segundo Shinohara (2000) e Calleja (1989), o judô teve sua fundação juntamente com a Kodokan (escola para o estudo do caminho), em 1882 no Japão.
Vale ressaltar que os participantes deste estudo têm no mínimo dois anos de prática, e, estas questões são conteúdos teóricos básicos, que deveriam ser ministrados ao primeiro contato, pois saber pelo menos de onde, quando e quem idealizou é o mínimo para dar significado para a prática que se está realizando.
Com relação aos pressupostos teóricos que deram base para a criação do judô:
. 34 disseram que o judô foi criado a partir do jiu-jitsu;
. 4 se omitiram e,
. 2 dois não foram coerentes.
Jigoro Kano realmente utilizou-se do jiu-jitsu para criação do judô, porém é importante salientar que ele se baseou em vários estilos de jiu-jitsu, os quais segundo Shinohara (2000, p.49) são: Takeuti Ryu; Shibakawa Ryu; Jiti Shin Ryu; Yo-Shin Ryu; Sekiguti Ryu; Kito Ryu; Tenshin Shinyo; Kashima Shinyo Ryu. Dentre estes, os que foram mais utilizados foram o Tenshin Shiro Ryu e o Kito Ryu.
Na continuidade questionou-se ao grupo sobre máximas deixadas por Jigoro Kano, cujas respostas estão no Quadro 1.
Quadro 1. Máximas que compõe a filosofia do judô
Observa-se no que a maioria não tem conhecimento; apenas sete judocas descreveram (em português) as duas máximas do judô, e quatro citaram apenas uma "ceder para vencer" - Seyrioku- Zenyo.
O alicerce que levou Jigoro Kano a repensar um novo estilo de jiu-jitsu, foi elaborar uma atividade que fosse capaz de explicar e ser útil a todas as atividades humanas, e Seiryoku Zenyo que significa máxima eficiência com mínimo de esforço gasto e Jita Kyoei que significa bem estar e benefícios mútuos, são as máximas deixadas por Jigoro Kano e, se bem aplicados, trazem benefícios tanto na prática do judô como na vida em geral de seus seguidores (SHINOHARA, 2000).
Com relação ao conhecimento dos judocas sobre os princípios do judô, apenas sete judocas descreveram algum princípio, sendo que: cinco judocas citaram um -"Quem teme perder já está vencido"; dois judocas citaram dois princípios: "Conhecer-se é dominar-se e dominar-se é triunfar", e "Nunca te orgulhes de haver vencido um adversário. Ao que venceste hoje, poderá derrotar-te amanhã. A única vitória que perdura é a que se conquista sobre a própria ignorância".
Oito judocas não citaram nenhum, porém dissertaram sobre as qualidades que devem estar ligadas diretamente aos praticantes desta arte marcial, tais como: respeito, educação e caráter. Os demais não acrescentaram nada.
Além dos três princípios citados, existem mais seis (VIRGÍLIO 1986; SHINOHARA, 2000), além dos sete dizeres máximos de Jigoro Kano (ARPIM, 1970). Os resultados que demonstram a falta de conhecimento dos judocas vão ao encontro do estudo de Santos et al. (1990) no qual encontraram que tanto técnicos e judocas são conscientes que o judô possui uma filosofia, porém não apresentam conhecimentos sobre essa.
Um fator que pode justificar o não conhecimento da filosofia do judô são as diferenças culturais entre o oriente e o ocidente, sobre o qual Borges (2003) comenta que pela falta de conhecimento ocorre a confusão entre espiritualidade e religião, dando margem a diferentes interpretações e não entendimento, principalmente quando ocorre a falta de embasamento teórico. Desta forma, é preciso mais que transmissão do aporte prático da modalidade, é necessário que seja transmitida a base cultural com pressupostos teóricos, apresentando e demonstrando os significados dos conceitos, os princípios e as máximas deixadas por Jigoro Kano.
Com o intuito de verificar a aplicação dos princípios durante a prática do judô (treino e competição) e no cotidiano, mediante a percepção dos judocas, questionou-se os mesmos como se utiliza as máximas do judô (Jita-Kyoei e Zeiryoru-Zen-yo) durante o treino.
Dos 40 questionados:
. 22 disseram que utilizam as máximas do judô no momento da aplicação da técnica, mesmo que apenas sete tenham descrito as máximas na questão pertinente e descreveram que procuram aproximar-se o máximo da perfeição, procuram aprimorar ao máximo as técnicas, se preocupam com o oponente e procuram não utilizar muita força, sendo o mais eficiente possível.
. 13 afirmaram que não utilizam as máximas e,
. 5 se omitiram.
Em seguida, questionou-se sobre a preocupação com seus oponentes durante o treino:
. 39 disseram que se preocupam, justificaram que não há treino se não tiver o oponente, ou seja, não tem como se aperfeiçoar;
. 1 respondeu que não, justificando que faz o que sabe de melhor.
Com relação à aplicação da filosofia do judô no cotidiano:
. 34 judocas responderam que existe relação e,
. 6 disseram que não.
Dos que responderam que sim, justificaram que o judô está ligado diretamente com suas vidas.
Algumas das relações citadas pelos judocas foram: "o judô traz paz de espírito e serenidade à minha vida"; "um ajuda o outro a não querer passar por cima do outro"; "estou sempre correndo atrás dos meus objetivos, força de vontade e paciência para aprender e estar sempre melhorando"; "filosofia de vida"; "caminho suave"; "disciplina e companheirismo"; "ajuda a manter a calma/disciplina"; "desenvolvimento do meu ser (físico e cabeça)".
Considerações finais
De acordo com os objetivos, com base no referencial teórico e respeitando as limitações do estudo, conclui-se que:
• os judocas ... demonstraram pouco conhecimento sobre dados básicos relacionados ao histórico do judô;
• desconhecem os princípios que compõe a filosofia preconizada pela prática do judô;
• parte dos judocas afirmou que utilizam os princípios filosóficos na prática, mesmo que desconheçam teoricamente os mesmos;
• parece que há uma contribuição da filosofia do judô no cotidiano, principalmente quanto a mudanças de atitudes, no entanto, algumas das mudanças citadas, poderiam ser adquiridas se os mesmos estivessem praticando qualquer outra modalidade desportiva.
Diante de tais conclusões, percebe-se claramente que a prática do judô em ... está direcionada unicamente à competição, e, estão sendo esquecidos os pressupostos teóricos que são fundamentais na formação de judocas completos, tanto dentro quanto fora do tatame.
Obs. Naturalmente que este pequeno estudo é pálido se levarmos em conta a enorme quantidade de praticantes de Judô no país, mas é sempre um indicativo interessante.
Oss!

Em nossa escola possuímos 3 tipos de certificação de faixa preta. São elas:
1- Mey dan - Essa primeira graduação é pertinente a um praticante apaixonado pelo karate, porém em razão da dinâmica de sua vida não consegue participar efetivamente dos treinos ou possui impedimentos físicos que prejudicam seu desenvolvimento. Entretanto, sempre colabora, ajudando no que está ao seu alcance. Por colaborar na divulgação da Escola de Karate recebe o reconhecimento de seus serviços com um certificado de Faixa preta Honorário chamado em japonês de Mey-dan. O faixa preta com essa certificação não está autorizado a representar a escola, nem a ministrar aulas regularmente.
2- Suisen dan – Esse é o segundo tipo de certificação de faixa preta. O praticante treina regular e sistematicamente, mas, ou, não possui potencial técnico para ser aprovado, ou por ser praticante de outras artes marciais ou esportes de combate possui um Karate contaminado, misturado. Entretanto, por ser um bom lutador e praticante antigo, pode receber a faixa preta em reconhecimento ao empenho demonstrado. Esse tipo de faixa preta chama-se de Suisen-dan (grau por antiguidade). O faixa preta com essa certificação não está autorizado a representar a escola, nem a ministrar aulas regularmente.
3- Jitsu Kyoku dan - Finalmente existe o praticante que possui índice técnico perfeito, apresenta um Karate limpo e não contaminado, possui capacidade física, mental e espiritual para apresentar todos os movimentos em sua forma correta, entende e é capaz de discursar sobre os vários princípios filosóficos inerentes a arte. Sua aprovação foi mediante uma banca examinadora conseguindo aprovação com uma nota mínima de 7 (sete). Esse tipo de graduação chama-se Jitsu Kyoku Dan (faixa preta completo). O faixa preta com essa certificação representa a escola e está devidamente autorizado a ministrar aulas regularmente em qualquer lugar.
Obs: Um faixa preta de Karate não é um professor de Karatê, mas sim, uma pessoa que se sacrificou o suficiente para conseguir um relativo controle de seu corpo e de sua mente. Para ser um professor é necessário outras qualificações complementares.
Oss!
MAKIWARA – treinar ou não.
Inicialmente é importante que ressalte que o objetivo do treinamento na makiwara não é o de calejar ou deformar as mãos.
A makiwara é um instrumento de desenvolvimento do poder de penetração dos golpes do implemento da velocidade, foco e precisão.
A diferença que entre um golpe penetrante - aquele que projeta a força além do golpe e um simples choque entre a mão e um alvo é grande.
O resultado de um golpe bem aplicado é marcante. Quem já viu um golpe aplicado corretamente num quebramento pôde perceber que a mão "atravessa" o alvo, o que é radicalmente diferente de um quebramento mal sucedido, no qual a mão se choca com o alvo e ricocheteia nele sem a quebra.
Treinar na makiwara, apenas para endurecer as mãos é equivalente a usar uma espada como um porrete. Uma espada é um instrumento para cortar enquanto que o porrete é um instrumento para bater.
Quando se treina com a consciência correta do objetivo, a possibilidade de acidentes ou sequelas é mínimo, as lesões que porventura aconteçam são quase sempre derivadas da construção incorreta da makiwara (sem observância de princípios físicos ou ergonômicos), da técnica errada e de objetivos de treinamento incorretos.
O primeiro princípio físico que deve ser observado em qualquer tipo de treinamento que implique em golpear uma superfície sólida é a Terceira Lei de Newton: Toda ação corresponde uma reação, na mesma direção e sentido contrário. No caso da makiwara, isso pode ser traduzido como: Se você bate na makiwara, a makiwara bate em você. O desconhecimento deste princípio é a causa principal das lesões crônicas de longo prazo.
Em geral o que se observa são makiwaras construídas com madeira muito dura, com espessura excessiva. E, o que é pior, mantendo a mesma espessura da base até o topo. Quanto maior a espessura da madeira, mais rígida será a makiwara, se a espessura da madeira for à mesma da base até o topo pior ainda.
Quando se tem uma correta relação espessura/base, a madeira rígida se torna uma lâmina flexível, conseguindo-se um efeito de mola de modo que, ao ser atingido, ela cede e uma parte do impacto será absorvida pela estrutura interna da madeira que ao se curvar sob o impacto do golpe transforma-se em calor.
Desta forma, a energia devolvida para a mão é bem menor que o impacto inicial.
Além dos óbvios problemas ergonômicos que podem advir da relação entre a altura do praticante e a da makiwara.
A transmissão de força de um soco direto é máxima quando o movimento chega ao seu final, nesse momento o braço deve estar paralelo ao chão, fazendo com que a reação seja mais absorvida devido à anatomia do braço, ombro e coluna vertebral.
Agora vamos falar sobre a superfície de impacto, propriamente dita. Existe um conceito incorreto, de que quanto mais dura for à superfície, mais preparadas ficarão as mãos do praticante, fabricar uma makiwara com superfície de elevada rigidez é desejar uma lesão.
Não é necessário ser um ortopedista para perceber que é contra indicado atingir repetidamente uma superfície rígida com as articulações dos dedos.
O próprio Funakoshi adverte sobre o risco desta prática no livro "Karate-Do, My Way of Life" e no "Karate-Do Nyumon" quando critica praticantes que batem na makiwara até verem as mãos sangrando com a intenção de exibir suas "cicatrizes de guerra" e inflar os egos diante dos outros praticantes mostrando-se durões e indiferentes à dor.
Uma superfície rígida vai devolver integralmente o impacto à mão. Um alvo de um material capaz de transformar parte do impacto em calor, diminui consideravelmente a reação sobre a mão.
As considerações físicas sobre materiais capazes de absorver parte do impacto não se aplicam quando o tempo de impacto for muito pequeno (golpes rápidos) de modo que a velocidade de deformação das superfícies envolvidas seja muito alta (deformação adiabática).
Outro ponto importante é a distância entre a makiwara e a parede. A makiwara não deve ficar próxima de uma parede, de modo que, ao ser atingida não seja freada.
Quanto à técnica, a boa fundamentação é essencial para que deficiências posturais, falta de preparação muscular e articular, excesso de força ou aplicação incorreta dos golpes não agravem a possibilidade de lesões por esforço (incorreto) repetitivo.
Numa classificação simples, abstraindo-se as posições de base e deslocamento e fatores que dependem da morfologia do praticante e da escola de Karate, há basicamente duas maneiras de se atingir a makiwara:
1- Rapidamente e com a puxada da mão (Hikite) logo após o impacto;
2- Rápido e forte, mantendo a posição final da mão após o impacto; Ambos os modos podem ser realizados com graus diferentes de aplicação de força, dependendo dos objetivos do treinamento.
Se perguntarmos a muitos dos praticantes de Karate sobre o porquê do uso da makiwara, em geral as respostas tenderão ao seguinte lugar-comum: ‘Para preparar as mãos para impactos a partes duras da anatomia do adversário.
Isso nos lembra imediatamente das calosidades escuras com a aparência de chifre, que alguns praticantes mais antigos exibem nas articulações dos dedos. Tais calosidades, em geral, são conseguidas ao longo de muitos anos de treinamento com makiwara.
Por observação direta, os praticantes que conheço e que apresentam estas calosidades, possuem alguma dificuldade para executar movimentos mais refinados com as mãos como exigido em alguns Kata e para realizar tarefas mais delicadas como, por exemplo, escrever com uma caligrafia bonita ou desenhar figuras geométricas com acurácia.
Outra indicação desta perda de destreza para realizar movimentos precisos e refinados é o fato de que, de um grupo de cirurgiões praticantes de karate e ligados ao Centro de Estudos de Artes Marciais do DF, nenhum se exercita com makiwara regularmente ou pratica Tameshiwari justamente por razões profissionais.
Ao se definir objetivos de treinamento para se trabalhar com a makiwara devemos levar em conta os seguintes objetivos a serem alcançados: Melhora da velocidade, distância e precisão dos golpes, ganho de poder de penetração dos golpes e aperfeiçoamento das técnicas envolvidas.
Para melhorar a velocidade, o treinamento deve ser realizado atingindo-se a makiwara de uma distância tal que ao final do golpe a mão apenas toque a superfície de impacto.
Neste caso, partindo-se de uma posição de luta, atinge-se a makiwara com a maior velocidade possível, sem preocupar-se em "afundar" o golpe e recolhendo a mão, se possível, mais rápido ainda.
Não deve haver preocupação com tensionamento do braço ou do pulso, pois a mão vai apenas tocar na superfície de contato.
Para o treinamento de distância e precisão, basta que o praticante se afaste cada vez mais da makiwara e golpeie mantendo as mesmas premissas acima: máxima velocidade, apenas tocar a makiwara (precisão linear) e atingir o centro do alvo (precisão lateral).
Quanto maior a distância inicial, maior a dificuldade em se realizar essas três coisas. Nesse tipo de treinamento não se deve procurar afundar o golpe ou realizá-lo com força, pois, por mais bem projetada que tenha sido a makiwara. Para golpes rápidos, apenas uma pequena parte da energia do impacto será dissipada, de forma que se a mão ainda estiver presente quando a makiwara oscilar e voltar, parte considerável do impacto da reação será devolvido à mão.
Observe-se que para esse tipo de treinamento há uma inversão do senso comum: Acertar com muita força ou aprofundar o golpe nesse caso é errado.
Agora, para obter ganho no poder de penetração dos golpes, o posicionamento inicial deve ser tal que a mão, ao fim do golpe, ultrapasse a linha da makiwara por, pelo menos, a distância de um punho.
A partir de uma posição de luta, atinge-se a makiwara, tentando fazer com que a mão, ao final, esteja pressionando a makiwara e a mesma encontre-se inclinada para além do seu eixo.
Do momento do impacto até a posição final, mão e makiwara não devem perder contato e, ao final, o praticante deve estar posicionado em base, com postura correta e com a mão que golpeou estendida na posição final do soco e tensionando a makiwara.
O golpe deve ser seco. Não vale empurrar a makiwara.
Aqui vem uma questão técnica sutil. O golpe agora não deve ser realizado contra a makiwara. O objetivo não é bater na makiwara, mas, sim, "através" dela.
O praticante deve socar como se ignorasse a presença da makiwara levando o golpe até o final. Nem é preciso dizer que isso só deve ser realizado por praticantes razoavelmente adiantados e capazes de socar "corretamente" de acordo com as instruções do professor.
Se o golpe for dirigido contra a makiwara sem a tentativa consciente de ultrapassá-la, o máximo que conseguiremos serão alguns calos nas mãos e, algumas lesões na pele, nos pulsos, cotovelos ou ombros.
Este tipo de treinamento não deve ser realizado em makiwara excessivamente rígidas e nem com superfície de impacto muito duras pelos motivos já expostos.
Aliás, a combinação de makiwara rígida, superfície dura e golpe dirigido à makiwara e não através dela são a causa primária de lesões, tanto imediatas e agudas quanto as crônicas.
Na diferença entre socar além da makiwara e socar na makiwara é que está a diferença entre apenas endurecer as mãos ou condicionar corpo e mente para ganhar foco e poder de penetração.
Um ponto importante que não podemos deixar de comentar é a execução correta do golpe. Para isso a perícia do praticante e as instruções e acompanhamento do professor são essenciais.
Os praticantes devem ser orientados não só quanto à técnica correta dentro dos fundamentos do Karate, mas também sobre os objetivos de cada tipo de treinamento, sobre noções de segurança e potenciais riscos de lesões a curto e longo prazos.
A avaliação sistemática efetuada pelo professor é indispensável para a correção de detalhes técnicos. Por mais que o aluno seja orientado, se deixado entregue a sua própria sorte, lentamente acabará desenvolvendo vícios de execução que poderão se transformar em lesões crônicas.
Também não poderia me furtar a esclarecer, por mais que pareça o obvio, que parara que o professor possa ‘mostrar’ o movimento correto a ser executado e o objetivo a ser alcançado, é necessário que ele tenha longos anos de prática e chame a makiwara de você e não de senhor. Se é que consigo me fazer entender.
O que tenho percebido, na nova e moderna geração de professores praticantes de Carate Esportivo é que praticamente não existe mais esse equipamento no local de treino. Infelizmente seu uso foi considerado anacrônico e desnecessário, tendo em vista os modernos objetivos esportivos.
A importância do acompanhamento regular por parte do professor é definir um programa de treinamento personalizado e com metas realistas, adequado aos objetivos desejados, levando em consideração a morfologia e capacidade técnica.
Já que estamos falando de metas realistas, um grande engano relacionado á definição dos objetivos merece especial atenção: devido à inexperiência, orientação incorreta ou maus exemplos, muitos praticantes tendem a exagerar, tanto na quantidade de repetições e intervalos na sequência de treinamento, quanto no emprego de força e/ou amplitudes excessivas ao realizar os movimentos e golpes. Novamente a orientação e acompanhamento do professor é importante.
"Tudo em demasia é excesso. E todo excesso é ruim". Esse axioma reflete e resume exatamente como a prática exagerada pode ser o ponto de partida para lesões e danos permanentes.
Toda essa nossa conversa versa sobre o treino na tradicional makiwara em forma de estaca de madeira, destarte, existem vários outros tipos. Uma em especial, merece ser citada por me parecer a que tem maior potencial para causar danos.
Alguns dojo usam um artefato que consistem em um bloco de madeira preso na parede. Este bloco possui uma ou mais reentrâncias (fendas) paralela à parede e ao longo de quase toda a sua extensão, de modo que quando o golpe atinge a face alvo, a deformação resultante faz com que ela ceda por uma extensão igual à da fenda (na ordem de alguns milímetros).
Este tipo de makiwara, não deve ser usada para treinamento de penetração, pode ser utilizada com restrição, pois o retorno da energia é forte e pode causar dano.
Como já disse antes, a maioria dos professores não utiliza mais esse importante equipamento, desprezarem esse treinamento por ser inútil em competição. Essa concepção vem do preconceito de que a makiwara tem como único objetivo calejar as articulações dos dedos indicador e médio.
Estão corretíssimos, realmente, mãos calejadas não têm muita utilidade em competições por pontos e, a bem da verdade, também não garantem socos mais fortes no caso de competições com contato.
Trata-se de entendimento incorreto dos reais objetivos. O treinamento correto é o aprimoramento de velocidade, precisão, foco, controle e poder de penetração. Naturalmente, que se praticada com uma finalidade esportiva é obviamente uma ferramenta importante para o competidor, seja por pontos, seja por nocaute, bastando que se exclua o treinamento de penetração, dando ênfase ás outras valências.
Vamos agora a um pouco de informação científica e histórica.
O soco de um karateca altamente treinado pode atingir uma velocidade de 13 metros por segundo, produzindo uma força equivalente a 680 quilos. Essa alta velocidade do soco e seu alto impacto já foram alvo de vários estudos acadêmicos e pesquisas de campo.
Esse equipamento foi criado na ilha de Okinawa. Makiwara significa palha enrolada (maki - enrolada e wara - palha), foi dado esse nome porque no local onde se efetuava o soco era colocada uma palha enrolada para amortecer o impacto do golpe. Atualmente é colocado uma borracha de 0,5 mm a 1 cm de espessura para proteger a mão do lutador.
Muito comum em dojos mais carenciados é utilizar uma sandália (tipo havaiana) cortada e em cada extremidade da sandália é amarrada uma corda fina. Para mulheres karatecas, que não desejam a possibilidade do calejamento das articulações, pode-se usar algo mais macio.
Tradicionalmente a makiwara é construída de ipê ou peroba. A makiwara possui um comprimento de 1,50 m acima da linha dos pés. Esta é considerada uma altura padrão porque o braço esticado de um adulto ao tocar na makiwara forma um ângulo de 90º, medida ideal para o treino de soco. Sua largura deve ser de 10 cm e a espessura é de 6 cm na base e 2 cm na ponta.
Para o treino de velocidade a série deve ser de 6 a 10 repetições, com um intervalo passivo de 30 a 40 segundos para produzir a necessária restauração energética, ocasionar o adequado trabalho muscular e a melhora da técnica do golpe.
Os iniciantes devem aumentar o intervalo conforme pode se observar: Os valores indicados para a ressíntese da ATP-CP são de 1 minuto (recupera 80%) ou de 2 a 3 minutos (recupera 90%) ou de 4 a 5 minutos (restaura 100%). A quantidade de séries para um trabalho de velocidade deve ser no mínimo de 3 a 6, numa frequência semanal de no mínimo 2 por semana.
No caso de treinamento de penetração e força, é importante lembrar que quando o 2º e o 3º metacarpos atingem a makiwara, o lutador faz uma força isométrica para segurar esse implemento produzindo o kime – a força final do golpe.
Esse impacto entre a mão e a makiwara se encontra bem delineada na 3ª Lei de Newton, ou seja, a força exercida pelo soco desencadeia uma força de reação do makiwara com igual magnitude e em direção oposta ao soco. Portanto, quanto mais forte o soco, maior é a força isométrica exercida pelo karateca para segurar o makiwara com o 2º e o 3º metacarpo, gerando um maior impacto para os braços.
Quando o 2º e o 3º metacarpo tocam o makiwara eles realizam uma pressão no contato expresso pela força dividida pela área, tendo a unidade de medida de Newton por milímetro quadrado. Exemplo, um soco de um homem de 1,84 m com o 2º e o 3º metacarpo possui uma força de 556 Newton e área de 6 milímetro quadrado (p = 556 : 6 = 92,66 N/mm²). Enquanto que o mesmo soco com o 3º, 4º e 5º metacarpo tem uma força de 556 Newton e área de 7 milímetro quadrado (p = 556 : 7 = 79,42 N/mm²). Logo, o karateca pode perceber que é vantajoso socar com o 2º e o 3º metacarpo, pois essa menor área gera uma maior pressão no soco. Isso sem entrar no mérito postural do acompanhamento do punho.
Caríssimos alunos, espero que todos tenham entendido, qualquer dúvida ainda existente poderá ser tirada em aula.
Oss!

BODHIDHARMA.
Fala-se muito nesse patriarca. Muitos dojos possuem uma imagem dele no butsudan. O reconhecem como o mestre que trouxe as artes marciais da Índia para a China.
Mas afinal qual é a história desse grande homem.
O Bodisatva Avalokitesvara Bodhidharma, conhecido na China pelo nome de Ta Mo, por Daruma Taishi ou Bodai Daruma no Japão.
Nascido em 460 dC., terceiro filho do grande Rei Brahamam das terras ocidentais da Índia, certamente é a figura mais controvertida e comentada das artes marciais do oriente.
Sua influência no cenário das artes marciais da China, Coréia e Japão é indiscutível.
Convém lembrar que a Índia possui uma divisão por castas que tem sobrevivido desde tempos muito antigos até a atualidade, deste modo, Bodhidharma, filho do Rei Sudanda pertencia á casta guerreira dos Kshastryas, mesma casta do Budha.
Desejando preparar seu filho para que pudesse reinar com coragem e sabedoria, o Rei contratou o mais famoso professor de artes márciais da Índia para instrui-lo pessoalmente.
Esse guerreiro famoso pôr seus feitos militares e por sua excelente técnica de luta se chamava Prajnatara e, logo ao iniciar o treinamento percebeu que Bodhidharma seria um grande lutador, não somente pela facilidade com que aprendia os movimentos, mas também, a grande dedicação e concentração demonstrada durante os longos períodos de ensino.
Com o decorrer dos anos surgiu uma grande amizade entre o mestre e o discípulo, e mesmo quando tempos depois o mestre Prajnatara se converteu ao budismo, Bodhidharma continuou como seu aluno até sua morte em 520 dC.
Prajnatara, em razão de sua competência como guerreiro, e face a grande disciplina adquirida pelos anos longos de treino, conseguiu atingir uma grande realização espiritual.
Após a constatação dessa libertação da mente por parte de seu professor Punyamitra, que era o 26º patriarca do budismo indiano, recebeu a incumbência de continuar a propagação da doutrina de Budha.
Nesta época a Índia encontrava-se perdida em especulações metafísicas e dogmáticas acerca da doutrina budista, afastando-se dos princípios originais ensinados por Budha.
Prajnatara percebendo a necessidade de reconduzir a filosofia budista à sua naturalidade e simplicidade inicial, e, notando em Bodhidharma a firmeza de caráter necessária ao desempenho da tarefa, passou a lhe ensinar o budismo junto com as artes marciais.
Bodhidharma como era de seu feitio, entregou-se de corpo e alma ao estudo dos novos ensinamentos que eram transmitidos por Prajnatara.
Após muitos e muitos anos de treinamentos físicos diários, alternados, com o estudo e prática do budismo, Bodhidharma começou a perceber que o domínio mental era muito mais importante que a força física e a técnica marcial e que, embora o treinamento físico fosse mais gratificante, seu conhecimento não tinha o mesmo valor que o treinamento mental.
À medida que evoluía na prática budista, ia superando cada vez mais as manifestações de egoísmo, avareza, cobiça, apego etc. Passando a compreender que o homem deve executar suas tarefas do dia a dia visando a humanidade e o bem comum, de modo a favorecer não somente aos seres humanos, mas também todas as criaturas vivas.
Atingindo essa compreensão, Bodhidharma entendeu que o combate marcial propriamente dito perdia todo seu valor e significado em termos de ganho ou perda, mérito pessoal ou vitórias alcançadas, para transformar-se em um caminho de auto-conhecimento que justificava sua aplicação técnica apenas em ocasiões de defesa sua ou de outros.
Lutar sim, mas não para vencer ou para provar sua competência ou superioridade sobre outros seres. Lutar apenas para preservar a justiça e a harmonia que dão vida aos seres e asseguram o equilíbrio universal.
Com a morte de seu mestre, Bodhidharma assumiu o cargo de 28º Patriarca do Budismo indiano e passou a dar cumprimento as determinações de seu mestre - reconduzir o budismo à sua essência original.
Neste período o budismo estava sendo muito aceito na China, como pode-se perceber pelos números (no fim do Séc. V, haviam aproximadamente 2 mil templos budistas e 36 mil monges no sul. Ao norte, um recenseamento em 477 contou 6,5 mil templos e aproximadamente 80 mil monges. Menos de 50 anos mais tarde, outro recenseamento feito ao norte aumentou esses números para 30 mil templos e 2 milhões de monges, ou cerca de 5% da população. Sem dúvida, isso incluía muitas pessoas que estavam tentando evitar impostos ou recrutamento ou que procuravam a proteção da igreja por outras razões não religiosas, mas claramente o budismo estava espalhando-se pelas pessoas comuns ao norte do Rio Yangtze. No sul, permaneceu confinado à elite educada até o Séc. VI.) e a convite do Imperador Liang Wu Ti, Bodhidharma viajou a China para dar prosseguimento a sua missão.
Os fatos que dizem respeito da convivência de Bodhidharam com esse Imperador pouco se sabe, mas houve uma entrevista entre os dois que acabou ficando famosa – outra hora eu conto essa história.
Após o confronto com o Rei, Bodhidharma dirigiu-se para o reinado de Wei, sendo acolhido pelos monges budistas do Mosteiro ShaoLin (Jovem floresta, situada na montanha de Hao Shan, vila de Sung Chan, província de Honan) que o hospedaram por muitos anos.
Conta-se que enquanto estava hospedado nesse mosteiro Bodhidharma meditou diante de uma parede durante nove anos (note que a linhagem Soto Zen, até hoje pratica a meditação formal em frente a uma parede).
Ainda hoje existe no templo Shaolin, na face norte uma sala, onde se pode ler em chinês arcaico: “Este é o local onde Ta-mo (Bodhidharma) olhou a parede”.
Bodhidharma enquanto meditava em frente à parede, foi conduzido a estados de consciência cada vez mais sutis, chegando á conclusão que de todas as práticas budista a mais importante era a meditação, efetuada da maneira formal (sentado de pernas cruzadas).
Embora compreendesse a importância das quatro nobres verdades que constituem o sustentáculo budista, Bodhidharma percebeu que sem a prática sistemática da meditação, a doutrina perdia seu sentido filosófico e a prática das artes marciais se transformava em apenas mais uma forma de agressão e violência.
A essa nova concepção do budismo, Bodhidharma denominou dhyanna, que em sânscrito quer dizer meditação. Entretanto, para os chineses a pronúncia do sânscrito era muito difícil e acabou sofrendo modificações fonéticas que mudaram sua pronúncia para c’hanna e finalmente para c’han (No Japão recebeu o nome de zen e na coréia o nome de sun).
Quando Bodhidharma chegou á China e se hospedou no Mosteiro Shaolin, percebeu que dada á severidade das meditações que ele obrigava os monges a executarem, os mesmos devida a sua péssima condição física, não resistiam e desmaiavam durante a prática, deste modo, constatando o estado físico precário dos monges, Bodhidharma começou a lhes ensinar a arte marcial aprendida com seu mestre Prajnatara, para fortalece-los e capacita-los a suportar com mais eficiência o exercício da meditação.
Durante muito tempo, alternaram-se no treinamento físico e mental de modo que ano após ano eles ficavam cada vez mais fortes, saudáveis e respeitados, pois uma arte ajudava a outra a se desenvolver, assim como os defendia e ao mosteiro dos eventuais ataques e invasões de ladrões e salteadores.
Contam os historiadores que para Bodhidharma tanto a prática budista como das artes marciais tinham igual valor diante dos objetivos de auto-conhecimento e desenvolvimento da sabedoria .
Com o passar do tempo à prática das artes marciais como meio de desenvolvimento mental e espiritual, passou a substituir grande parte da meditação formal, nas atividades do monastério, fazendo o templo famoso, não como um templo budista, mas sim como uma escola de artes marciais.
A arte marcial ensinada no templo era mantida em segredo, sendo transmitida somente aos que já haviam recebido suas vestes monásticas e feito os votos mais elevados. A razão para este procedimento era o fato das técnicas serem perigosas, podendo ser uma grande vantagem nas mãos de pessoas menos esclarecidas ou mal intencionadas.
É interessante notar que já existiam técnicas de combate em épocas pré-arianas, quando a Índia ainda era habitada pelos Dravidas, embora a cultura draviniana tenha sido relegada ao esquecimento após a invasão dos arianos, as técnicas de combate permaneceram e foram preservadas como tradição dos nobres pelas castas de guerreiros (kshastryias).
Segundo os historiadores, mesmo depois de ter atingido a suprema iluminação e ter-se transformado em Bhuda, Sidharta Gautama Sakyamuni, ensinava artes marciais aos seus seguidores como prática ascética, porém não existem registros desse fato.
Com a invasão da China pelos Manchus, em que foi dizimada toda a dinastia Minh, fato esse que obrigou os oficiais do exército chinês a fugirem ou refugiarem-se nos templos budistas, por serem territórios apolíticos e independentes, assim como pela excelência de suas localizações e exageradas dimensões.
Esses refugiados acabaram sendo treinados pelos monges para que pudesse tentar resistir á invasão.
Entretanto, a verdadeira arte marcial que era utilizada apenas como defesa e recurso de meditação e ao desenvolvimento espiritual (nessa etapa da historia a luta já tinha um nome - C’han Tao Chuan – a arte dos punhos do caminho da meditação) era somente ensinada aos monges já ordenados.
Ao longo dos anos de guerra, todos os templos foram lentamente sendo subjulgados, perante a superioridade numérica e beligerância dos invasores, até que todos os templos foram destruídos e seus monges mortos e decapitados, restando apenas o de Shaolin, que sofria longo cerco das tropas sem que sucumbisse, devido às suas enormes proporções e muros inexpugnáveis.
Entretanto, o templo também teve seu Judas. Despeitado por não ser autorizado a acessar as técnicas marciais e, motivado pela recompensa de um alto cargo público no novo governo, um monge de categoria inferior de nome Ma Ning Yee, envenenou a água do templo e o incendiou no dia 25 de julho de 1773 dC.
Do incêndio e envenenamento, somente sobreviveram poucos monges. Desses monges, o que se sabe é que alguns passaram a ensinar técnicas de luta ao exercito nacionalista, outros abriram escolas de artes marciais, alguns acabaram sendo perseguidos e mortos pelas tropas Manchus. Outro emigrou para o interior da China, abrindo uma escola e fundando um estilo de arte marcial, outro fugiu para a Coréia e, três foram acabar em Okinawa, onde acabaram se envolvendo com outra guerra, pois Okinawa era dominada por um senhor feudal (Senhor de Shimasu) que maltratava muito seus vassalos. Assim, unindo seus conhecimentos tanto de luta como da doutrina budista com os de uma outra arte de combate rudimentar chamada Okinawa te (as mãos de Okinawa) acabaram por força das circunstâncias ajudando a criar o Karate (Mãos chinesas).
Até hoje em quase todos os dojos tradicionais antes de se iniciar a aula, professores e alunos efetuam prostrações e cumprimentos em sinal de respeito e agradecimentos a imagem ou estátua de Bodhidharma, bem como em todos os mosteiros e templos da tradição zen encontra-se um oratório específico e efetua-se regularmente cerimônias para o grande Patriarca Bodhidharma.
O Zen de Bodhidharma influenciou tanto o japão e a china que praticamente todas as mais representativas manifestações da cultura japonesa e chinesa fundamentam-se no pensamento zen. Exemplo: A arte ikebana, o bonsai, a pintura sumi-e o teatro No, o teatro kabuki, o kyudo, o kempo, o judo, o karate etc.
Graças aos esforços do maior samurai da história do Japão Shimmem Musashi no kami Fujiwara no Genshin - Miyamoto Musashi (1584-1645), que fundamentado no zen desenvolveu o Bushido (código de honra dos samurais), até os dias atuais o Zen se encontra fundido com as artes marciais tradicionais de forma quase indivisível.
Jigoro Kano, criador do Judo, mantinha um monge Zen na sua escola (kodokan) para ensinar a seus discípulos o verdadeiro valor da disciplina mental nas artes marciais.
No livro autobiográfico de Gichin Funakoshi (o pai do Karate) o autor faz várias referências ao Zen.
Quem examinar os livros dos mestres de Karate Gogen Yamaguchi (goju ryu), Masutatsu Oyama (kyokushin oyama) e Kanazawa (shotokan) poderá ver várias fotos dos mesmos em meditação Zen.
Os nomes dos movimentos formais do Taekwondo, Hapkido e Hwaran-do são nomes de famosos monges Zen coreanos.
Essa é razão de Bodhidharma ser considerado o primeiro patriarca das artes marciais.
Mas, há quem diga que ele não existiu realmente. Com a palavra os historiadores.
Oss!
Getúlio Taigen
A ponte de pedra de Joshu.
By Getulio Taigen
Durante a dinastia T'ang, na China, o grande mestre Zen Joshu Jushiro Zenji era abade do templo Kannon-in. Para chegar ao seu templo era necessário cruzar uma ponte de pedra, que era chamada de Ponte de Joshu.
Certa vez um monge visitante perguntou: "Para que serve a ponte de Joshu?"
Ele não estava mencionando a ponte para se chegar ao templo, mas sobre a essência do ensinamento de Joshu.
O mestre respondeu: Essa ponte ajuda pessoas, burros e cavalos a atravessar.
O que o mestre quis dizer, usando uma expressão idiomática da época era que qualquer um podia passar pela ponte e todos seriam recebidos da mesma maneira.
Na vida sempre existirão pessoas as quais nos afeiçoamos e outras não. Há quem diga que isso é produto de karma de vidas passadas, onde as que gostamos foram nossos amigos em outra época e as que não gostamos nossos inimigos, mas isso é conversa para outro dia.
Por uma ponte tudo passa - pessoas boas, ruins, cães, gatos, motos, carros, ladrões, assassinos, invejosos, depressivos, baratas, ratos etc.
A todos a ponte permite atravessar, sem pedir nada em troca, sem selecionar.
Sempre haverá quem diga - "que ponte ruim, que ponte mal feita, difícil de passar", reclamam, batem os pés, dão chutes, urinam na ponte, jogam lixo e até mesmo tentam destruí-la.
Existem alguns que chegam na entrada da ponte e voltam, outros vão até o meio e se perdem olhando a paisagem, poucos a atravessam e desses poucos, menos ainda consegue assimilar, compreender e realizar o que encontram do outro lado – na outra margem.
Mas a ponte continua sendo a ponte.
Poucos a atravessam com gratidão dizendo "obrigado" ou "graças a você pude atravessar".
Seja lá qual for a maneira que atravessem, a todos a ponte permite passar sem fazer discriminação, sem nada exigir, sem considerar.
Um professor é como uma ponte. Se ele pensar: ‘Esse eu deixo atravessar, aquele não... esse é um babaca de marca maior, vai ficar do outro lado, esse é gente boa pode vir.
Um professor que escolhe, que seleciona de acordo com suas conveniências e só dá permissão para os que o elogiam, para aqueles que agradecem, para os talentosos, para os ricos etc. esse decididamente não é um bom professor.
Se fica mal humorado, por causa de uns e outros que coitados se encontram numa fase em que a vida não lhe sorri.
Afinal, colhemos o que plantamos, tudo são causas e condições. Quer saber como está sua vida nesse exato momento, olhe para seu passado. Quer saber como será sua vida amanhã, olhe para o presente. Você produz sua alegria ou sua tristeza.
Na minha função de professor recebo alunos dos mais diversos, com objetivos diferentes, vivências diferentes de classes sociais diferentes, mas não posso nunca me esquecer de que minha função é ser como a ponte de Joshu – permitir que me usem para chegar ao outro lado.
Naturalmente, que um professor ou uma ponte não agrada todo mundo. Cada desagradado tem suas razões, seus motivos. Na maioria dos descontentes, a resposta do porque do desagrado se encontra neles mesmos.
As razões vão desde a falta de talento para aprender, passando pela inveja de que por mais que se esforce não conseguirá chegar a um patamar no mínimo razoável, viajando pela instabilidade emocional e chegando ao mal caratismo. Poderia citar facilmente pelo menos uns cincuenta motivos, mas tenho certeza de que não será necessário.
Uma ponte não consegue, nem tem como objetivo controlar o que todos os que passam por ela pensam sobre ela. Na verdade ela se entristece, pois percebe que ficar discutindo sobre os valores da ponte é o mesmo que dissertar sobre chifres na cabeça de um coelho – coelhos não tem chifres.
O que realmente importa é o que vai encontrar quando atravessar a ponte.
Simples assim.

Kimono - Tudo que você sempre quis saber.

Kimono – O que você sempre quis saber mas nunca te explicaram direito.
Inicialmente é importante saber que quase todos os uniformes das artes marciais e esportes de combate modernos derivam do uniforme utilizado por Kano para prática do judô.
Além de ser o avô dos uniformes, o Judo também foi o primeiro a introduzir o sistema de graduações com faixas coloridas.
É sabido que Jigoro Kano, estudou várias ramificações do tradicional Jujutsu, que não possuía uma roupa específica para o treino, usava-se uma roupa comum do dia a dia.
A roupa que era usada nos treinos de jujutsu eram basicamente compostos adaptados da roupa comum - um casaco comprido, sem mangas ou com mangas curtas, um obi que era uma faixa larga para amarrar o casaco e na parte de baixo uma hakama (um tipo de calça larga até os pés) ou um gobatake (uma espécie de bermuda que ia até as coxas).
A fim de que seus alunos pudessem trocar pegadas firmes, Kano percebeu que um uniforme adequado para prática do judô deveria ter um wagui (casaco) feito de um tecido grosso, resistente às puxadas; o shitabaki (calça) que deveria ser mais comprida, também de material resistente; e o obi, que até então era uma inconveniente faixa larga de seda, passaria a ser uma faixa estreita de algodão.
E foi assim que por volta de 1907, ele desenvolveu o judogui na forma que conhecemos hoje, e desde então, este mudou muito pouco.
As maiores alterações posteriores foram desenvolvidas especificamente para as competições.
Hoje o judogui é um pouco mais comprido e mais largo, com estritas regras a respeito destas medidas para as competições oficiais.
Com a rápida popularização do judô no Japão, as novas artes que surgiram posteriormente como o Karate e o Aikido rapidamente perceberam a necessidade de também padronizar um uniforme para sua prática.
Assim, a partir do projeto de Kano, Funakoshi e Ueshiba fizeram suas modificações, mas mantiveram o conjunto muito parecido. Ou seja, casaco com mangas longas, faixa representando a graduação e calças compridas.
Mais para frente também aderiram a este modelo várias outras artes marciais como o Hapkido, Krav Magá, Taekwondo, o Jiujitsu brasileiro e dezenas de outras.
Antes de Jigoro Kano ter criado o judô, não havia nenhum sistema de classificação de dan/kyu nas artes marciais.
O método de reconhecer o grau de um aluno era através da apresentação de certificados ou pergaminhos emitidos pela escola da arte em que ele treinava.
No princípio do judô, Kano também seguia a mesma regra, mas quando o Kodokan começou a crescer em número de alunos, ele viu a necessidade de dividir os mais velhos e mais experientes dos iniciantes.
Kano, então, separou os alunos em Mudansha, sem graduação; e Yudansha, graduados.
Em 1883 Kano efetivou seus primeiros faixas pretas - Shiro Saigo e Tsunejiro Tomita.
Mas os Mudansha e Yudansha ainda não eram diferenciados pela cor da faixa, somente pelo título.
Isso só aconteceu em 1886 quando Kano permitiu que os Shodan usassem uma faixa preta, que era ainda uma faixa larga de cetim, a mesma usada nos kimonos que os japoneses usavam regularmente (nessa época o judogui moderno ainda não havia sido inventado).
Por volta de 1930 Jigoro Kano criou uma nova cor de faixa para reconhecer as graduações de faixas pretas de alto nível.
Jigoro Kano escolheu reconhecer o sexto, sétimo e oitavo graus da faixa preta com as cores vermelho e branco alternadas – a famosa e tão discutida faixa coral. Por algum tempo essa faixa foi utilizada por um das numerosas federações no Brasil, para diferencia-la das outras. Com o falecimento do seu idealizador a tal faixa coral foi abandonada e voltou-se a utilizar a faixa preta.
Na faixa coral, a cor branca foi escolhida por kano por simbolizar a pureza, e a vermelha pelo intenso esforço efetuado para chegar aquele nível.
Ele também criou a faixa totalmente vermelha para reconhecer 9º e 10º dans.
Em 1935 quando o sensei japonês Mikonosuke Kawaishi ensinava judô na França, teve a percepção de que nós ocidentais precisavamos de algo mais palpável para nos sentirmos motivados num trajeto de tão longo aprendizado, principalmente quando se tratava de crianças e adolescentes, por isso, desenvolveu um sistema de sub graduações chamados Kyu, com cores diferentes para cada etapa.
Estas graduações tiveram a primeira sequência de cores na seguinte ordem:
Branca (6º kyu)
Amarela (5º kyu),
Laranja (4º kyu),
Verde (3º kyu),
Roxa (2º kyu) e
Marrom (1º kyu).
No Brasil por volta da década de 1970 foi criada a faixa azul antes da amarela.
A partir dos anos 2000, com o forte crescimento do judô e com crianças começando a treinar cada vez mais cedo, houve a necessidade de se criar mais sub graduações, como a faixa cinza, e recentemente, em 2011 foram criadas as faixas branca com ponta cinza; cinza com ponta azul; azul com ponta amarela; amarela com ponta laranja.
Quanto as cores do dogui, existe muita especulação e controvérsia.
A primeira delas é – “Por que o dogui tem que ser branco?”. A resposta que sempre se ouviu foi que a cor branca representa a pureza da mente, a cor da bandeira do Japão e as roupas de baixo do samurai em combate que eram brancas.
O problema é que, diferentemente da escolha das cores para as faixas de 6º dan em diante, Jigoro Kano nunca revelou nem deu maiores explicações sobre a razão especial do judogui ser branco.
Acredito que os primeiros judoguis eram brancos provavelmente porque essa era a cor do algodão cru do qual eram feitos.
Assim, os judoguis são brancos até hoje porque os japoneses são tradicionalistas e conservadores.
Em 1986 o judogui azul foi sugerido pelo atleta campeão mundial Anton Geesink.
O objetivo da nova cor era ajudar os árbitros na distinção dos atletas nos combates oficiais e facilitar o entendimento das lutas transmitidas pela TV para os leigos.
Antes dele, os oponentes eram diferenciados apenas por uma faixa vermelha amarrada sobre a faixa principal.
A sugestão do judogui azul foi aceita plenamente apenas por volta de 1997 após muitos anos de contestações, e com a ressalva de que o uniforme azul deveria ser utilizado somente em competições oficiais.
E quanto ao competidor utilizar um dogui azul em treinos ou competições não oficiais?
Alguns acham praticamente intolerável permitir que um aluno participe de um treino de dogui azul.
Por outro lado há senseis mais liberais, normalmente os não japoneses que permitem que alunos treinem com dogis de qualquer cor, até mesmo preto, como é o caso do Jiu Jitsu Brasileiro.
Como sou da escola antiga, não permito o uso de kimonos que não sejam brancos, não somente por uma questão de tradição, mas também por saber que no Brasil, os alunos não compartilham a tradição de ser proibido o uso de um kimono sujo na primeira aula da semana.
Deste modo, sendo o kimono de outra cor que não seja o branco (que se suja facilmente) ele seria usado por mais de um mês, como se percebe nos esportes de combate que facilitam o uso de qualquer cor.
Apesar de saber que existem projetos sociais em que dezenas de crianças compartilham os mesmos kimonos, se fossem todos brancos ficaria absurdamente mais difícil mantê-los limpos.
Realmente, não tenho a resposta para esse impasse, afinal nosso país possui diferenças sociais realmente abissais.
Entretanto, o que tenho percebido nas academias onde os professores foram formados por professores brasileiros, uma queda brutal nas tradições.
Tenho visto com regularidade, kimonos de todas as cores, orações evangélicas no início das aulas, abraços e apertos de mãos ao final, nenhum tipo de cumprimento ao altar dos ancestrais (isso quando possuem um altar), tratamento igualitário á todos independente da graduação, total falta de respeito ao professor presente, nenhuma observância do horário de início e término das aulas, alunos se sentando á margem do dojo de qualquer maneira (sem a parte de cima do dogui, de pernas abertas, deitado etc)
Não sou tão inflexível a ponto de não permitir que um aluno que tenha esquecido seu dogui ou não tenha tido tempo de ir busca-lo em casa fique sem treinar, mas convenhamos que uma coisa é a exceção outra é o descaso com a tradição.
Quando começamos a questionar tudo e todos, corremos o risco de alterarmos a arte na sua essência, perdendo seus valores e tradição.
Por exemplo: Não podemos achar que o dogui branco é obrigatório simplesmente porque Jigoro Kano não achou o azul bonitinho o suficiente, nem o rosa muito fashion.
Os professores modernos devem atentar para que os valores e princípios da arte não comecem a se perder em meio a estas pequenas, porém marcantes distorções.
O cerimonial ensinado junto com a arte, deve ser preservado.
Deve-se iniciar uma aula com as reverências de praxe, devemos nos cumprimentar com respeito, utilizar os nomes dos movimentos em sua forma original etc.
Qualquer arte que faça muito diferente disso, com toques pessoais e arbitrários sobre o que vale ou não vale a pena preservar irá por denegrir e alterar a finalidade da arte marcial, que antes de formar lutadores e guerreiros deve produzir verdadeiros homens de bem.
Oss!